A pessoa de Carl Rogers, de sua Abordagem Centrada na Pessoa, não tem, em momento algum, a pretensão a um caráter ontológico, ou metafísico.

Carl Rogers buscava apenas, em primeiro lugar, sair decididamente do referencial de uma relação não implicativa com a pessoa do cliente. Sair da perspectiva do referencial de uma relação explicativa, objetivista, teorética, conceitual, técnica, ou meramente comportamental, ou simplesmente alienada, com a pessoa do cliente.

E ele sabia que a relação efetiva com a pessoa situava-se, naturalmente, no plano imediato de uma relação empírica. Empírico aqui quer dizer não teórico. E, também no caso do Rogers, e da Fenomenologia, não objetivista.

Talvez precocemente advertido por Buber, não obstante, Rogers sabia que, em se tratando da pessoa, este empirismo por certo não seria o empirismo objetivista... No seu tempo, e no meio da cultura acadêmica Norte Americana -- ele não formulava assim --, a sua empatia era exatamente o empirismo dialógico, fenomenológico existencial, compreensivo e implicativo. O empirismo fenomenológico da dialógica.

Este empirismo fenomenológico da consciência já estava em germe proposto pela metodologia do Aristóteles do De Anima, quando este propõe a metodologia das Ciências Naturais para o estudo da consciência. Um empirismo especificamente da consciência. Que Brentano vai desvendar, como o empirismo fenomenológico intensional da consciência. A dimensão fenomenológico existencial, e dialógica, da consciência; e da relação dialógica, como diria Buber, da natureza não humana, do inter humano, e da relação com o sagrado.

Carl Rogers vai entender este empirismo como empatia. Como páthico. Empático.

Não, certamente, o conceito do pathos no sentido Latino, o pathos como sofrimento, como doença. Mas o pathos entendido, no seu sentido Grego original, como sensibilidade emocionada. Como a sensibilidade estética, e poiética, fenomenológico existencial.

Juntando Aristóteles, e a patéthica Grega; juntando Brentano, Buber, e Heidegger, mesmo que assim não o soubesse, em sua noção implicativa de empatia, aí está a genialidade de Carl Rogers. Porque suas concepções e metodológica, eminentemente, própria e especificamente, implicativas, fenomenológico existenciais e dialógicas, compreensivas, emergiam no mundo da ciência e da cultura Norte Americanos, fortemente marcados por uma ontofobia, e fortemente marcados pelo objetivismo, explicativo, e por seu empirismo objetivista, por sua tecno lógica, e por seu comportamentalismo.

Em particular no objetivismo do modelo bio-médico, no objetivismo bio-médico da epistemologia psicanalítica, e no objetivismo explicativo Comportamental...

Carl Rogers pelejou com estas tendências objetivistas explicativas, ontofóbicas, técnicas, utilitaristas, pragmáticas, predominantes na cultura da ciência, da Psicologia, e da Medicina Norte Americanas; e, por que não dizê-lo, mundiais.

Pelejou, igualmente, com as tendências idealistas. Para depurar e decantar um modelo fenomenológico existencial empático, para preconizar uma relação com o cliente, com o educando, com o participante de grupo, que valorizasse, não uma perspectiva, explicativa, teorética, objetivista; moralista, causativa, técnica, pragmática; mas que fosse experimental e hermenêutica, no sentido ontológico e fenomenológico existencial. Que fosse implicativa, fenomenológico existencialmente empírica, dialógica; empática, numa palavra...

Carl Rogers queria dizer, apenas, com o seu conceito de pessoa, que na sua abordagem privilegiava a relação com a pessoa considerada na perpspectiva do empirismo de uma relação com ela, a relação com a pessoa fenomenológico existencial empírica, dialógica, compreensiva e implicativa, a pessoa na empatia da relação ontológica, dialógica, e fenomenológico existencial, compreensiva e implicativa.

Apenas isso.

Em nenhum momento Carl Rogers se propôs a fazer uma ontologia da pessoa. Mas busca em essência definir e cultivar uma relação ontológica com a pessoa empírica. Fenomenológico existencial empírica. Dialógica, compreensiva e implicativa.

E isso era monumental, no âmbito dos conflitos culturais, éticos, ontológicos e epistemológicos daquele momento e lugar precisos. Carl Rogers só precisava disso, o conceito da relação com a pessoa em sua empiria compreensiva e implicativa, dialógica, empática.

Críticas às formulações de Carl Rogers? Claro que sim. Sempre, como a todos. Desenvolvimentos de sua concepção da pessoa e da metodologia de sua relação com ela... Claro que sim!

Mas criticá-lo sob o ponto de vista de uma ontologia da pessoa não faz sentido. Carl Rogers não se preocupou em elaborar uma ontologia da pessoa. Sua concepção de pessoa é metodológica. E sua consideração pela pessoa é consideração pela pessoa ontologicamente empírica, e evidentemente empírica.

Criticá-lo por algo que ele não fez não faz sentido.

Sua preocupação era preconizar uma relação implicativa e compreensiva com a pessoa, como a sua presença e alteridade, em sua empiria fenomenológico existencial, e dialógica, compreensiva e implicativa. Para tanto, ele não precisava de uma teorética ontológica da pessoa. Seu interesse era o de privilegiar a dialógica ontológica, empática, da relação com a pessoa fenomenológico existencialmente empírica.

O plano da relação ontológica com o outro, anterior aos princípios de uma Ontologia...

Neste plano da vivência, ele certamente diria, com Pessoa: o ter consciência não me obriga a ter teorias... Só me obriga a ser consciente...

As conquistas ontológicas, epistemológicas, conceituais e metodológicas de Carl Rogers, neste sentido, são clássicas. Na história da Psicologia, e na história da cultura da civilização ocidental. O que quer dizer, foram, em sua essência, importantes quando foram concebidas, e vão ser sempre. Não considerar isso adequadamente é não contextualizá-lo, e não compreendê-lo.

Carl Rogers é, naturalmente, criticável. Como todo mundo. Claro. E ele próprio tinha aguda consciência disso. Mas ele tem outras dimensões para serem criticadas. Sua concepção operacional e metodológica da pessoa, e da relação com a pessoa, é genial. Revolucionou a Psicologia e a Psicoterapia. Revolucionou as Ciências Humanas. Revolucionou a Ciência, no sentido de uma Ontologia, de uma Epistemologia, e de uma metodológica fenomenológico existenciais e dialógicas, compreensivas e implicativas.

Nov 2012.

 

 


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