A genuinidade do psicólogo, do psicoterapeuta, do pedagogo, do facilitador de grupos, é uma das condições metodológicas da abordagem rogeriana. A genuinidade, não tem aqui um sentido moralista, ou metafísico. Igualmente, não tem o sentido de uma consonância com uma suposta vida interior.

Ao nos relacionarmos inter humanamente, dialógicamente, com o outro, somos constantemente outros. O modo dialógico de sermos, fenomenológico existencial, é o modo de sermos em que na relação com o outro somos constantemente outros. Outros com relação ao(s) parceiro(s) da relação. E outros com relação a nós próprios, com relação ao passado de nós próprios, já que o modo fenomenológico existencial, e dialógico, de sermos é o nosso presente, a nossa presentidade. Modo de sermos do presente, caracterizado pela vivência do desdobramento de possibilidades que é a ação. Cuja atualização implica na constante emergência e atualização da outridade de nós próprios.

A originalidade, a genuinidade, a autenticidade de nós próprios, nós outros, portanto, não está na mesmidade de uma identidade. Não está na mesmidade de uma identidade com o passado de nós próprios.

Na condição do passado de nós próprios -- a condição específica de ente, de coisa, impotente, sem forças/possibilidades --, cada vez mais nos angustiamos, como observava Heidegger.

E a própria angustiação nos conduz, da condição de ente -- de coisa, impot-ente --¸ à condição originária e ontológica de pré-ente. Da condição de ente, ao pré-ente, à pré-ença. À presença. Ao não só fenomenológico, mas ontológico modo dialógico de sermos, do presente: o modo fenomenológico existencial e dialógico de sermos, compreensivo e implicativo; gestaltificativo.

Que é -- todo ele, na constatação de Buber --, atualidade. Atualização. Ação. Todo ele ação, na momentaneidade instantânea da eventualidade de sua duração, como duração da vivência fenomenológico existencial do desdobramento de possibilidades.

Isto quer dizer que é todo ele, este modo ontológico de sermos, vivência de forças, vivência de possibilidades, que se desdobram em ação. É todo ele -- o modo fenomenológico existencial e dialógico de sermos, compreensivo e implicativo, gestaltificativo -- desdobramento cognitivo, consiência pré-reflexiva, fenomenal, de forças, da vivência do desdobramento de possibilidades, ou seja, ação. Atualização.

As possibilidades, as forças que se dão em nossa vivência ontológica, fenomenológica, dialógica, de ser no mundo, continuamente emergem, e se desdobram, fenomenológico existencialmente; e são sempre radicalmente outras e inéditas, infinitamente outras e inéditas, as forças que constituem a nosas vivência ontológica.

A figurarem gestaltificativamente, e, na ação, a configurarem o nosso devir, a nossa superação, e o sujeito no qual continuamente nos constituímos, junto com o mundo que nos diz respeito.

Diferentes, diferenças, inéditas as possibilidades, somos sempre outros, ao atualizá-las, ao desdobrá-las vivencialmente, fenomenológico existencialmente, ao agirmos. Inéditos.

De modo que a originalidade ontológica de nós próprios, nossa genuinidade, nossa autenticidade, é, sempre, fenomenológico existencialmente, a orginalidade e a autenticidade de, como atores, sermos recorrentemente e constantemente outros.

Ser ator, agente, é ser outro (Mafffesoli), ser outro é ser ator. É ser ação, como vivência fenomenológica do desdobramento de possibilidades.

É esta a nossa cíclica, renovativa e regenerativa, originalidade. A nossa cíclica e renovativa genuinidade e autenticidade. A autenticidade de sermos constante, cíclica, renovativa, e regenerativamente, outros.

É a presença da genuinidade desta outridade, característica da vivência do modo fenomenológico existencial e dialógico de sermos -- compreensivo e implicativo, gestaltificativo -- que se constitui como uma das condições da metodológica fenomenológico existencial da abordagem rogeriana.

Desnecessário dizer que, como no caso das demais condições da metodológica da abordagem rogeriana, existe uma fundamental meta condição das condições metodológicas. Que é a da aquiescência com a momentaneidade instantânea da vivência do modo fenomenológico existencial e dialógico de sermos, compreensivo e implicativo, gestaltificativo. Uma aquiescência com o modo cognitivamente ativo, especificamente atualizativo, de sermos.

Na vivência deste modo ontológico de sermos é que podem, sine qua non, deitar raízes, na momentaneidade instantânea da relação, e frutificar, não só a empatia e a consideração positiva incondicional -- que, junto com a genuinidade, formam o conjunto de condições metodológicas formuladas por Carl Rogers --, mas a própria ação, a própria, atualização, a própria tendência atualizante. E mesmo, naturalmente, a própria tendência formativa, como característica especificamente gestaltificativa da ação, como característica especificamente gestaltificativa da tendência atualizante. Enquanto processo formativo de coisas, na duração da vivência fenomenológico existencial de formação de figuras e fundos da ação, da atualização, da tendência atualizante.

Naturalmente que medra todo tipo de distorções improdutivas com relação à noção de genuinidade da abordagem rogeriana – assim como com relação às outras de suas noções.

Com relação a uma noção de genuinidade, naturalmente, as fáceis e explicativas interpretações moralistas e metafísicas ganhariam uma predominância. Estas interpretações contradizem uma noção fenomenológica de genuinidade. Na medida em que se afastam da premissa básica da genuinidade fenomenológica e existencial, que é a vivência, que é o modo fenomenológico de sermos, a afirmação do modo fenomenológico e existencial de sermos. Físico, e nunca metafísico. Ético, estético, poiético, e nunca moralista...

Para privilegiarem o modo conceitual, o modo reflexivo, metafísico, explicativo, não implicativo, nem compreensivo, de sermos.

Reduzindo a genuinidade a uma identidade com um modelo ideal, teórico, conceitual. Explicativo. Acontecido. Não fenomenológico, nem existencial... Desconsiderando a genuinidade como a presença da vivência do desdobramento cognitivo do possível. Que chamamos de ação, de atualização.

Ou, de modo inconsistentemente objetivista, tratando de reduzir a genuinidade às expressões de uma ‘vida interior’.

Vida interior inexistente, em termos existenciais. Na medida em que, como nos adverte Nietzsche, a existência não tem dentro. E toda vida interior é doença...

A existência é a projetação, o pro-jeto (jato), projatação, da insistência (eksistencia ontológica). Ou seja, a vivência, pré-reflexiva, pré-conceitual, fenomenológico existencial, e dialógica, compreensiva, e implicativa; o movimento, a moção, e-moção, e motiv-ação, como pressão, ex-pressão, do desdobramento pré-reflexivamente cognitivo das forças que são as possibilidades.

As possibilidades emanam projetativamente, ex-pressivamente, do Ser. E se constituem em nossa vivência de ser no mundo. Na qual não se distinguem ainda sujeito e objeto, interior e exterior. Tal é a inconsistência da ideia de uma vida interior como fonte de nossa verdade, de nossa originalidade, de nossa genuinidade, de nossa autenticidade... Ontológicamente, não somos uma vida interior. Nossa originalidade e nossa autenticidade não está numa suposta vida interior. Numa suposta interioridade.

Referindo-se à interiorização, bem humorado, Nietzsche diria antológicamente, sobre o caráter reflexivo da vida interior -- na miríade de suas frases antológicas:

Cuidado! Ele está a refletir. Vai defender a sua mentira... kkkkk (sorry)

Em momentos diversos também Rogers e Perls dizem frases antológicas. Em que, por pouco, mas com graves implicações ontológicas e epistemológicas, erram na forma. Nas palavras:

Rogers diria: Os fatos são amigos.

Como era bôbo, meus deuses...

Não, não, Rogers!!!

Os fatos não são amigos!!!

Os fatos são fatos. E são especificamente feitos, viu?

E são amigos se, na performance do seu perfazimento, competentemente, damos tempo à ação do possível para fazê-los assim. Mas de qualquer forma, é inexorável, os fatos não são amigos, além da possibilidade de celebrá-los como bem feitos, bem fatos.

Além disso, os fatos são fatais. Fatídicos. Fatalidades... Além disso, a própria fatalidade (Buber).

Da qual temos que nos livrar, nas asas da alegria, da tristeza, ou da angústia... Para retornarmos ao modo de sermos do eterno retorno do possível, ao modo de sermos do eterno retorno da vontade de possibilidade, da vontade de tudo – tão diferente da vontade de nada que é o niilismo, que impera na fatalidade e no fatalismo dos fatos.

Não, os fatos não são amigos.

Retornados ao modo de sermos do eterno retorno do possível, já não estamos mais no domínio dos fatos, do feito, da fatalidade. Mas, mais uma vez, viajamos na potência das velas do possível. Do desdobramento de possibilidades...

Já não estamos mais no domínio dos fatos, mas no âmbito dos atos. No âmbito próprio da ação, da atualização. Que continuamente nos gera e regenera, como constantemente possíveis, como constantemente outros, como constantemente atores. A fonte da possibilidade, da genuinidade da outridade, da outridade da genuinidade, a fonte de nossa originalidade, de nossa genuinidade, de nossa autenticidade.

Outro que pensaria que perdeu um bom momento para ficar calado foi Fritz Perls. Quando pronunciou uma de suas frases mais geniais – se entendermos, como a Rogers, para além das palavras. Perls disse:

O núcleo do real é a ação.

Que nada, Perls...

O núcleo do real é apenas a realidade. A real ordem do rei.

Senhor rei mandou dizer...

O acontecido, o passado, a coisidade, o impossível, o impotente, o fato, a fatalidade, a explicação...

Mas, entendemos que não foi isso que você quis dizer, apesar de se embananar nas palavras... Entendemos que, na verdade, você quis dizer:

O núcleo do verdadeiro é a ação.

Aí está o caráter genial de sua frase. Que o coloca no nível dos grandes e patéticos ontologistas e epistemólogos do século XX... E você entendia muito bem o que era isso, e o que isto queria dizer...

Há uma distância de mundos entre a realidade e a verdade...

Na verdade, apenas, uma distância entre modos de sermos. O modo de sermos da realidade não é o modo de sermos da verdade. O modo de sermos da verdade é o modo ontológico de sermos, fenomenológico existencial e dialógico, compreensivo e implicativo, gestaltificativo. Especificamente o modo de sermos do acontecer.

O modo de sermos da realidade, como o nome indica, é o modo de sermos do acontecido, da coisa, do fato; e, no seu abuso, droga pesada, na hiper realidade, o modo de sermos da angústia, do fatalismo e da fatalidade, da impotência progressiva, da morte – a possibilidade da impossibilidade de toda possibilidade... Como dizia Heidegger.

De modo que Perls queria, evidentemente, dizer: o núcleo do verdadeiro é a ação.

Assim como Rogers queria dizer: os atos são amigos.

Amicíssimos, generosos, misteriosos, dádivas. Misteriosamente generosos, e dadivosos. Nietzsche já diria: a ação é um mistério...

O próprio possível, a força da possibilidade Não é à toa que se chamam de presentes.

E uma das dádivas generosas do modo de sermos dos atos, da ação, da atualização, fenomenológico existencial, compreensiva e implicativa, é que, própria e especificamente, ele é dialógico. Ou seja, ele é, também, o modo de sermos do compartilhamento (dia) do sentido (logos). O modo de sermos no qual compartilhamos sentido (logos) com o sagrado, com a natureza não humana, e com os outros seres humanos, no inter humano.

Uma das dádivas generosas do modo de sermos dos atos, do modo de sermos de nossa genuinidade, é que ele é o modo dialógico de sermos, no qual compartilhamos o processo poiético de produção de sentido, com os outros seres humanos, com a natureza não humana, e com o sagrado.

A última fase da vida do Rogers, a dos grandes grupos vivenciais, a partir de 1974, é fase de uma interessante e impressionante radicalização fenomenológico existencial. Digo do ponto de vista vivencial, ontológico, epistemológico, e metodológico. Toda a demanda existencial dos anos cinquenta e sessenta parece ter explodido dentro dos laboratórios do Dr. Carl Rogers. Principalmente na vivência, concepção e método dos grupos vivenciais. Os paz e amor da era hippie eram agora Phds. E, frequentemente, muito pouco convencionais... Dr. Rogers, inclusive, frequentemente assumia ares de um avôzinho degenerado...

Foi uma fase intensamente vivencial, e não teorética. E não resultou num movimento coletivo de teorização das importantes aprendizagens que se deram naquele período experimental. Foram formulações experimentais, e aprendizagens, muito importantes. Para todo o paradigma da abordagem rogeriana, para a concepção e método do trabalho com grupos, para a concepção e método da psicoterapia fenomenológico existencial, para a psicoterapia em geral, e para a ontológica, epistemológica e metodológica de uma ciência ontológica, epistemológica e metodológicamente compreensiva, e implicativa. Superando ousadamente, na ação, os estreitos limites do paradigma da ciência explicativa, no que concerne ao trato com as pessoas e com os grupos.

Isso não é pouco. As histórias futuras da Fenomenologia existencial, da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, as histórias futuras da Ontologia e da Epistemologia da ciência compreensiva, terão, sem dúvidas, que mencionar as experiências e experimentações rogerianas, principalmente no que concernem aos trabalhos com grupos.

Pela experimentação e aprendizagens desta época, fica claro que as condições terapêuticas formuladas originalmente são, na verdade, características, ou dimensões de uma metacondição específica. Que é a subsunção epistemológica e metodólogica delas a uma fenomenológica, a uma dialógica, a uma ontológica.

Ou seja, as condições terapêuticas, pedagógicas, e facilitadoras preconizadas originalmente subsumem-se em uma epistemológica fenomenológico existencial, e são, na verdade, aspectos e dimensões da vivência fenomenológico existencial e dialógica, compreensiva e implicativa, gestaltificativa. Assim o são, própria e especificamente, a empatia – a compreensão empática, que é uma designação redundante, uma vez que toda compreensão é empática, e toda empatia é compreensiva... --, a consideração positiva incondicional pela experiência do cliente, e a genuinidade do terapeuta.

Assim, quando se trata de genuinidade, não se trata da fidelidade a uma vida interior, introspectiva, subjetiva ou objetiva, explicativa e teorética. Mas a abertura, como dizia Heidegger, da liberdade para verdade do vivencial, no âmbito da dialógica de uma relação fenomenológico existencial, compreensiva, implicativa, gestaltificativa.

Num primeiro momento, desenvolvendo uma Psicologia e uma Psicoterapia da relação. Carl Rogers tentava superar a neutralidade, objetividade e frieza de uma postura técnica, de uma postura cientificamente explicativa. Desde o início, Carl Rogers entendeu perfeitamente, que, em se tratando de gente, uma ontologia, uma epistemologia, uma metodologia, uma ética, explicativas não atenderiam às demandas da condição humana. Por isso que tratava-se de abrir mão, enquanto postura metodológica, da fatalidade e do fatalismo, da artificialidade, da explicação; e abrir caminho para uma ontológica, para uma epistemológica, para uma metodológica, para a ética de uma ciência própria e especificamente compreensiva, e implicativa.

Esta, própria e especificamente, fenomenológico existencial e dialógica, compreensiva e implicativa, gestaltificativa, só faz sentido no âmbito de uma genuinidade. Que termina ficando clara, posteriormente, como a genuinidade da verdade da abertura vivencial, que é toda ela a cognitiva fenomenológico existencial da ação, do desdobramento de possibilidades.

Carl Rogers quer abrir mão do engessamento explicativo do institucional. E entende que, para além do institucional, para aquém da explicação, existe a possibilidade de relações inter humanas, implicativas, dialógicas, compreensivas, fenomenológico existenciais. Que reconhecem, e afirmam o institucional. Mas que o têm como chão, e não como teto, como limite. De modo que não vê mais como necessário a crônica definição, e a crônica limitação da relação ao explicativo e ao institucional. Na verdade, passa a ver a necessidade de superação dessa limitação ao engessamento institucional e explicativo da relação entre psicólogo e cliente, entre terapeuta e cliente, ente facilitador e grupo, entre professor e aluno... A definição da genuinidade, e de sua importância como elemento ético e metodológico, surge neste contexto.

Para além da superação da relação institucional, há a necessidade de franqueza por parte do psicólogo, do pedagogo. E não só a franqueza, num sentido moral, mas as próprias condições de ser franco, e engajar-se no que Buber define, no Do diálogo e do dialógico, como conversação genuína. Ou (op.cit) como a abertura, em detrimento da imposição, enquanto modo de relação.

Rogers teorizará sobre a genuinidade do terapeuta a partir de sua teoria do fluxo da experiência[1]. A genuinidade é então o estado de acordo do terapeuta... Uma teoria útil e interessante durante um certo momento. Mas bastante precária do ponto de vista teórico e epistemológico.

Depois das avassaladoras experiências, experimentações, e aprendizagens com os grupos vivenciais, que já não são mais os Grupos de Encontro, é que podemos entender que a genuinidade, como as outras condições da metodológica da abordagem rogeriana, na verdade são elementos de uma condição maior, à qual se subsumem: a ética ontológica fenomenológico existencial, a metodológica epistemológica da vivência da ação, da atualização, fenomenológico existencial e dialógica, compreensiva, implicativa, gestaltificativa.

De modo que a genuinidade é a genuinidade da ação. A genuinidade do modo ativo de sermos, do modo afirmativo de sermos. A genuinidade de sermos outros. Em particular porque é só a duração na insistência, no modo de nos atualizarmos como outros, que nos permite a vivência da duração na dialógica inter humana, na qual é possível inter agir com a outridade do outro. E com a de nós próprios.

Genuínos sejamos, é a consigna do método.

Mas não reflexivamente, não conceitualmente, não teóricamente, não explicativamente, não moralisticamente, não fatalísticamente, não realísticamente, não na identidade do mesmo.

Mas genuínos na momentaneidade instantânea fenomenológico existencial da vivência da ação, da vivência fugaz e duradoura da condição do ator, que se confunde com a condição de ser outro.

BUBER, Martin Eu e Tu.

                        - Do Diálogo e do Dialógico. 
HEIDEGGER, Ser y Tiempo.

MAFFESOLI, A Conquista do Presente.

NIETZSCHE, Assim Falava Zaratustra.

PERLS, Fritz Gestalt Terapia.

ROGERS, Carl Tornar-se Pessoa.

                        - Psicoterapia e Relações Humanas.



[1] ROGERS, Carl Psicoterapia e Relações Humanas.



 
 
Talvez não passe adequadamente percebido que Carl Rogers elevou a importante instância ética, e princípio político, e metodológico, a consideração pela pessoa, qua pessoa, política, e pela pessoa em sua ontológica fenomenodialógica. Não é pouco.

Ao lado de sua insistência na ação -- no poder naturalmente criativo, superativo, e regenerativo, da ação, à qual designa como tendência atualizante --, um dos aspectos mais básicos, e brilhantes, da concepção e da metodológica relação da abordagem rogeriana é a radicalidade de seu respeito incondicional pela pessoa. E pela ontológica compreensiva, e implicativa, da relação com a pessoa. Respeito este como constituinte de uma relação que metodologicamente potencializa a persistência na vivência fenomenodialógica da ação, a atualização, no modo de sermos de sua dialógica.

A concepção da consideração positiva incondicional pela experiência da pessoa é uma instância ética crucial, importantemente política, e metodológica. Ela implica, necessariamente, o respeito incondicional pela pessoa política, o respeito pela fenomenológica da relação inter humana, que implica o respeito à pessoa como outra, o respeito à pessoa como tu.

Respeito que só se dá, evidentemente, num reconhecer, e conhecer, a pessoa particular e fenomenológico existencialmente empírica, e dialógica, em sua alteridade. O modo próprio e específico do conhecer como acontecer; empático. O conhecer fenomenodialógico, e existencial, compreensivo, e implicativo. Numa palavra, o conhecer no âmbito compreensivo da momentaneidade instantânea da relação empática.

O que quer especificamente dizer: fenomenodialógica.

Empático quer dizer: no modo páthico de sermos. No modo de sermos do ‘pathos’. E o modo de sermos do pathos, além de fenomenológico, e ontológico, é própria e especificamente dialógico.

Muito equívoco em torno do conceito do termo pathos. Equívoco que se repete quase que maquinalmente. Ou até com pretensões a novidade.

Primeiro, é preciso considerar que o sentido do termo pathos que prevalece entre nós é o sentido Latino, Romano, da palavra. Que tem a ver com paixão, na verdade o excesso de paixão, como doentio, como sofrimento, como doença.

Originariamente, não obstante, no seu sentido Grego, anterior ao Latino, Romano, a palavra pathos não tem este sentido.

Mas refere-se à estética da sensibilidade emocionada. À estética da vivência fenomenológica, que é, propriamente, fenomenodialógica. Naturalmente motiva, emotiva, emocionada, e motivativa. O termo Grego refere-se, assim, à estética natural e intrinsecamente motiva, e emotiva, da vivência da ação, da atualização.

Empatia é, assim, a estética do pathos, a estética fenomenodialógica da vivência do modo ontológico de sermos da ação. Eminentemente compreensivo, e implicativo; naturalmente motivo, e motivacional; e originária e naturalmente tingido pela emoção ontológica.

A empatia -- como ontológica do modo fenomenológico e existencial de sermos, compreensivo e implicativo -- é eminentemente dialógica. De modo que é, em essência, na duração de sua momentaneidade instantânea, a relação com uma alteridade. Com a alteridade do tu.

Seja na esfera da relação com a natureza não humana, na esfera do inter humano, seja na esfera da relação com o sagrado.

 

Eminentemente empática, a condição da consideração positiva incondicional pela experiência do outro tem, assim, um profundo arraigamento dialógico, fenomenodialógico. Inter humano. Ontológico. E implica a compreensão profunda e radical de que, ao nível da vivência ontológica, pré-reflexiva, fenomenológico existencial, e dialógica, compreensiva e implicativa, a sua experiência e experimentação se dão como a dialógica da relação com a alteridade radical de um tu.

 

Enquanto alteridade (o caráter daquilo que é outro), na momentaneidade instantânea da duração da dialógica da relação eu-tu, o tu se dá em sua autonomia radical, como possibilidade, como desdobramento autônomo de possibilidades. Que é sempre cognitivo, e implicação da dialógica da relação, na pontualidade de sua momentaneidade instantânea.

Na dialógica da relação, não podemos, e não pode o eu, determinar o tu.

O tu se dá, sempre como devir da atualização de possibilidades alteritárias, que, continuamente, se produzem, no âmbito dialógico, cognitivo, da momentaneidade instantânea do modo de sermos de uma relação muito peculiar – a relação eu-tu (Buber).

Que, em termos de vivência fenomenológico existencial e dialógica, compreensiva e implicativa, gestaltificativa, dá-se como projetação cognoscente do desdobramento de possibilidades, como desdobramentos de forças plásticas, plastificativas.

E que não é, como modo de sermos, como vivência, da ordem do modo de sermos da dicotomia sujeito-objeto. Modo de sermos da ação, modo de sermos do ator, do acontecer; diferente do modo de sermos, acontecido, do espectador – no qual se constituem sujeito e objeto, e a sua teorética dicotomização.

O acontecer da dialógica da relação eu-tu não é, portanto, e por isso, da ordem da teorética; nem da ordem do moralismo. Igualmente, não é da ordem das relações de causa e efeito; nem da ordem da utilidade; não é da ordem da técnica. Nem mesmo, como vivência, da ordem da experiência da realidade -- uma vez que a experiência da realidade é da ordem do acontecido, e a vivência do acontecer fenomenológico existencial e dialógico, compreensivo e implicativo, gestaltificativo, é em específico o acontecer. Da ordem da verdade, como nos mostra Heidegger, que é o acontecer; mas não da ordem da realidade, que é o acontecido.

 

A consideração positiva incondicional pela experiência do outro é condição, assim, da relação fenomenodialógica com o outro na momentaneidade instantânea de seu acontecer ontológico.

De modo que, no âmbito da momentaneidade instantânea da relação eu-tu, não posso determinar o tu. Que é um foco autônomo de produção de sentido (Husserl). Sentido dele próprio, e o próprio processo de geração e de constituição de sentido que se desdobra como a dialógica da relação.

Além do que, sobretudo, como enfatiza Buber, o tu não é objeto. Em nenhuma circunstância o tu é objeto. Nem sujeito (da mesma forma que o eu não é sujeito, mas, como o tu, projeto, projetação do desdobramento de possibilidades, projeito). Projeto, projetação que se desdobra enquanto vivência como impulsão do desdobramento de possibilidades, no âmbito da momentaneidade instantânea da dialógica da relação. O tu não é objeto de um sujeito, eminente e especificamente espectador; mas parceiro intrínseco da momentaneidade instantânea da dialógica da ação, inter ação, do ator.

Em não sendo objeto – nem o eu sujeito --, o tu, como o âmbito da própria relação eu-tu, não teorético, não é conceitual, mas intensional, pré-conceitual, compreensivo, e implicativo. Além de dialógico, naturalmente.

Estão, o tu, e a própria relação eu-tu, fora do modo teorético de sermos da moral e do moralismo. Estão fora do modo de sermos da causalidade, das relações de causa e efeito; fora do modo de sermos da técnica, da utilidade, da realidade – como características próprias do modo acontecido de sermos.

Já que o modo dialógico de sermos é da esfera do modo de sermos do acontecer. Cuja vivência caracteristicamente se dá fora do modo teorético de sermos, do modo de sermos do sujeito e do objeto, e do modo de sermos da própria dicotomia sujeito-objeto; fora da causalidade, fora do explicativo modo de sermos da ciência explicativa. Fora da utilidade; e, como acontecer, fora da experiência acontecida da realidade.

 

Mas, dentre as peculiaridades do âmbito do modo de sermos do acontecer da dialógica do eu-tu, está a de que esta esfera, ainda que autônoma e afirmativa, carece da afirmação, afirmação da afirmação, por seus partícipes.

O eu-tu, o eu, e o próprio tu, carecem e demandam afirmação recíproca, para se desdobrarem.

De modo que só existe relação na afirmação da dialógica. Só existe dialógica na afirmação do tu – do eu e do tu, da dialógica do eu-tu.

Quando há uma recusa à afirmação do tu, à afirmação da relação eu-tu, a própria relação eu-tu se desvanece, e escoa momentânea e instantaneamente no sentido do modo eu-isso sermos, objetivo, e coisificado.

De modo que podemos explicarmo-nos – des-implicarmo-nos --, com relação ao tu. Podemos extinguir a momentaneidade instantânea da perduração do evento da relação eu-tu... Mas não podemos determinar a alteridade e a geração alteritária do tu, e dos seus sentidos. Da mesma forma que não podemos fazê-lo com relação ao próprio eu, que se confronta com o tu de si mesmo... Assim como não podemos determinar a alteridade e a geração alteritária das possibilitações e dos sentidos da própria relação eu-tu.

 

Daí a ontológica instância ética, o princípio político, e o princípio metodológico fenomenodialógico da consideração positiva incondicional pela experiência do outro na relação inter humana. Como uma conditio sine qua non da dialógica.

Como afirmação da presença alteritária da pessoa do outro, e do tu, E da própria relação eu-tu, na fenomenodialógica do encontro.

 

A instância ética e o princípio, político, e igualmente metodológico, da consideração positiva incondicional têm a sua importante e fundamental implicação política.

A consideração e a aceitação, a celebração mesmo, da pessoa política, qua pessoa – que era muito comum à abordagem rogeriana -- em sua alteridade. Como pessoa, a pessoa é digna de um respeito e de uma consideração positiva e calorosa. Isto é um princípio ético e político de respeito pela pessoa como pessoa. Não envolve nenhum tipo de aceitação ou aprovação. Mas é um princípio de consideração positiva pela pessoa genérica que se particulariza e encarna na pessoa empírica.

Há confusão quando se mal entende a instância ética e o princípio político e metodológico da consideração positiva incondicional como um princípio moral. Não o é. É uma instância ética e um princípio de respeito e consideração, e mesmo de celebração, pela pessoa genérica que se particulariza na pessoa empírica.Só isso. E não é pouco. E não um pricípio moral, um tipo de aceitação moral do que quer que seja da pessoa particular.

Princípio ético, político e metodológico a consideração positiva incondicional pela experiência do outro estabelece que inclusive, e em particular, o excluído e oprimido, é sempre outro, ontologicamente outro, inteiramente outro, e inteiramente hábil, eticamente hábil, para o encontro dialógico. E que, mesmo enquanto outro com o qual não interagimos, sua pessoa enquanto pessoa genérica e particular merece um respeito, e uma celebração, incondicionais. E merece ser respeitada enquanto outro em sua alteridade, que só pode ser devidamente tratada, apreciada, descoberta, e criada, no âmbito dialógico da relação inter humana propriamente dita.

Numa república incompleta (Raimundo Faoro) como a nossa, derivada de intensos processos coloniais da história da humanidade, que resultaram e resultam na escravização e na submissão de povos, cujos descendentes se constituem como as maiorias oprimidas e excluídas de nossos cidadãos, alteritários sempre; numa república incompleta, na qual medrou e medra como erva daninha, ou como um processo degenerativo, a gênese deficitária ou a deterioração social de uma instância ética e política radical de respeito para com a pessoa, e para com a própria vida – ética e princípio político que na prática, de modo tácito, não valeriam para a maior parte da população, as classes despossuídas; em verdade não valem para ninguém; – numa república incompleta na qual, inclusive, a Psicologia e os psicólogos frequentemente assumem uma cínica e tácita negação do respeito e da própria condição humana da alteridade do oprimido e excluído, e negam ideologicamente a própria realidade social e histórica do oprimido e excluído; o princípio ético, político e metodológico da consideração positiva incondicional, e sua reiteração e afirmação, ganham uma importância ética, política, metodológica e humana fundamentais.

É com relação à pessoa genérica, com relação à pessoa política em sua alteridade; é na ontológica da relação dialógica com a pessoa ontológica, empírica, fenomenodialogicamente empírica, não teorética, nem explicativa, é na implicação que se impõe os princípios éticos, políticos e metodológicos, da consideração positiva incondicional pela experiência do outro.

Devemos a Carl Rogers a afirmação e a reiteração desta instância ética, deste princípio político, e deste princípio de método fenomenodialógico e implicativo, no âmbito tão alienado e ideologicamente comprometido e ruinado da Psicologia e da Psicoterapia.

 

 

 

 
 
A pessoa de Carl Rogers, de sua Abordagem Centrada na Pessoa, não tem, em momento algum, a pretensão a um caráter ontológico, ou metafísico.

Carl Rogers buscava apenas, em primeiro lugar, sair decididamente do referencial de uma relação não implicativa com a pessoa do cliente. Sair da perspectiva do referencial de uma relação explicativa, objetivista, teorética, conceitual, técnica, ou meramente comportamental, ou simplesmente alienada, com a pessoa do cliente.

E ele sabia que a relação efetiva com a pessoa situava-se, naturalmente, no plano imediato de uma relação empírica. Empírico aqui quer dizer não teórico. E, também no caso do Rogers, e da Fenomenologia, não objetivista.

Talvez precocemente advertido por Buber, não obstante, Rogers sabia que, em se tratando da pessoa, este empirismo por certo não seria o empirismo objetivista... No seu tempo, e no meio da cultura acadêmica Norte Americana -- ele não formulava assim --, a sua empatia era exatamente o empirismo dialógico, fenomenológico existencial, compreensivo e implicativo. O empirismo fenomenológico da dialógica.

Este empirismo fenomenológico da consciência já estava em germe proposto pela metodologia do Aristóteles do De Anima, quando este propõe a metodologia das Ciências Naturais para o estudo da consciência. Um empirismo especificamente da consciência. Que Brentano vai desvendar, como o empirismo fenomenológico intensional da consciência. A dimensão fenomenológico existencial, e dialógica, da consciência; e da relação dialógica, como diria Buber, da natureza não humana, do inter humano, e da relação com o sagrado.

Carl Rogers vai entender este empirismo como empatia. Como páthico. Empático.

Não, certamente, o conceito do pathos no sentido Latino, o pathos como sofrimento, como doença. Mas o pathos entendido, no seu sentido Grego original, como sensibilidade emocionada. Como a sensibilidade estética, e poiética, fenomenológico existencial.

Juntando Aristóteles, e a patéthica Grega; juntando Brentano, Buber, e Heidegger, mesmo que assim não o soubesse, em sua noção implicativa de empatia, aí está a genialidade de Carl Rogers. Porque suas concepções e metodológica, eminentemente, própria e especificamente, implicativas, fenomenológico existenciais e dialógicas, compreensivas, emergiam no mundo da ciência e da cultura Norte Americanos, fortemente marcados por uma ontofobia, e fortemente marcados pelo objetivismo, explicativo, e por seu empirismo objetivista, por sua tecno lógica, e por seu comportamentalismo.

Em particular no objetivismo do modelo bio-médico, no objetivismo bio-médico da epistemologia psicanalítica, e no objetivismo explicativo Comportamental...

Carl Rogers pelejou com estas tendências objetivistas explicativas, ontofóbicas, técnicas, utilitaristas, pragmáticas, predominantes na cultura da ciência, da Psicologia, e da Medicina Norte Americanas; e, por que não dizê-lo, mundiais.

Pelejou, igualmente, com as tendências idealistas. Para depurar e decantar um modelo fenomenológico existencial empático, para preconizar uma relação com o cliente, com o educando, com o participante de grupo, que valorizasse, não uma perspectiva, explicativa, teorética, objetivista; moralista, causativa, técnica, pragmática; mas que fosse experimental e hermenêutica, no sentido ontológico e fenomenológico existencial. Que fosse implicativa, fenomenológico existencialmente empírica, dialógica; empática, numa palavra...

Carl Rogers queria dizer, apenas, com o seu conceito de pessoa, que na sua abordagem privilegiava a relação com a pessoa considerada na perpspectiva do empirismo de uma relação com ela, a relação com a pessoa fenomenológico existencial empírica, dialógica, compreensiva e implicativa, a pessoa na empatia da relação ontológica, dialógica, e fenomenológico existencial, compreensiva e implicativa.

Apenas isso.

Em nenhum momento Carl Rogers se propôs a fazer uma ontologia da pessoa. Mas busca em essência definir e cultivar uma relação ontológica com a pessoa empírica. Fenomenológico existencial empírica. Dialógica, compreensiva e implicativa.

E isso era monumental, no âmbito dos conflitos culturais, éticos, ontológicos e epistemológicos daquele momento e lugar precisos. Carl Rogers só precisava disso, o conceito da relação com a pessoa em sua empiria compreensiva e implicativa, dialógica, empática.

Críticas às formulações de Carl Rogers? Claro que sim. Sempre, como a todos. Desenvolvimentos de sua concepção da pessoa e da metodologia de sua relação com ela... Claro que sim!

Mas criticá-lo sob o ponto de vista de uma ontologia da pessoa não faz sentido. Carl Rogers não se preocupou em elaborar uma ontologia da pessoa. Sua concepção de pessoa é metodológica. E sua consideração pela pessoa é consideração pela pessoa ontologicamente empírica, e evidentemente empírica.

Criticá-lo por algo que ele não fez não faz sentido.

Sua preocupação era preconizar uma relação implicativa e compreensiva com a pessoa, como a sua presença e alteridade, em sua empiria fenomenológico existencial, e dialógica, compreensiva e implicativa. Para tanto, ele não precisava de uma teorética ontológica da pessoa. Seu interesse era o de privilegiar a dialógica ontológica, empática, da relação com a pessoa fenomenológico existencialmente empírica.

O plano da relação ontológica com o outro, anterior aos princípios de uma Ontologia...

Neste plano da vivência, ele certamente diria, com Pessoa: o ter consciência não me obriga a ter teorias... Só me obriga a ser consciente...

As conquistas ontológicas, epistemológicas, conceituais e metodológicas de Carl Rogers, neste sentido, são clássicas. Na história da Psicologia, e na história da cultura da civilização ocidental. O que quer dizer, foram, em sua essência, importantes quando foram concebidas, e vão ser sempre. Não considerar isso adequadamente é não contextualizá-lo, e não compreendê-lo.

Carl Rogers é, naturalmente, criticável. Como todo mundo. Claro. E ele próprio tinha aguda consciência disso. Mas ele tem outras dimensões para serem criticadas. Sua concepção operacional e metodológica da pessoa, e da relação com a pessoa, é genial. Revolucionou a Psicologia e a Psicoterapia. Revolucionou as Ciências Humanas. Revolucionou a Ciência, no sentido de uma Ontologia, de uma Epistemologia, e de uma metodológica fenomenológico existenciais e dialógicas, compreensivas e implicativas.

Nov 2012.