As questões correlatas de ontologia, de ética, de epistemologia e de método são a questão central de concepção e método da abordagem rogeriana.

Isto porque, seguindo uma ontologia, uma ética, uma epistemologia e uma metodologia fenomenológico existenciais, a abordagem rogeriana assume uma aguda ruptura paradigmática. Com relação, em particular, à Ciência Explicativa hegemônica, com relação ao Pragmatismo, com relação ao Objetivismo, com relação ao Realismo, com relação ao princípio de realidade, e ao positivismo do real; e com relação ao Idealismo. Em decidido privilégio ético e metodológico de uma Ontologia, de uma Epistemologia e Ciência compreensivas, dialógicas, e implicativas. De uma ética do inutilmente poiético e estético. De uma metodologia, empática, radicalmente empiristas, não no sentido objetivista do empirismo objetivista, mas no sentido da radicalidade do empirismo fenomenológico existencial e dialógico, compreensivo, implicativo, gestaltificativo. O modo de sermos da ação, da atualização, como o cognitivo devir do desdobramento de possibilidades.

Rogers entendeu de um modo particular, e foi parte do movimento que entendeu que a ação, a atualização, é a característica central da existência. Que a cria e recria, que a solve e resolve, em seu acontecer. E que a metodologia, a ontologia, a ética e a epistemologia da atualização são, própria e especificamente, fenomenológicas e existenciais. Dialógicas. Compreensivas, implicativas, gestaltificativas.

O que significa que uma ontologia é fenomenológico existencial?

Significa a compreensão de que, ontologicamente, no que essencialmente nos constitui como seres humanos, somos ora acontecer, ora acontecido. E que, no modo de sermos do acontecer, somos, basicamente, ação, atualização. Uma tendência atualizante, se quisermos. Mas o devir fenomenológico existencial do desdobramento cognitivo de forças, as possibilidades, que se dão compreensiva e implicativamente, gestaltificativamente, no modo de sermos da consciência pré-reflexiva, pré-teorética, e pré-comportamental.

A ação, a atualização, a tendência atualizante são eminentemente fenomenológicas.

Meio perplexo e atabalhoado, mas de modo extremamente importante, e significativo, Rogers já chamava a atenção para isso. Ou seja, a ação, a atualização, a tendência atualizante, se dão como vivência. Fenomenológico existencial.

A ação, a atualização, a tendência atualizante, não se dão representativamente, como consciência representativa. Não se dão explicativamente, como consciência explicativa, teorética. Não são conceituais, mas consciência pré-conceitual. E pré-comportamental -- não se dão comportamentalmente.

Dão-se, antes, como consciência pré-reflexiva, fenomenológico existencial e dialógica; compreensiva e implicativa, gestaltificativa.

A ação, a atualização, a tendência atualizante, dão-se como vivência imediata de forças, possibilidades, em desdobramento. Que surgem, vivencialmente, e se desdobram, cognitiva e muscularmente como devir, do íntimo do que entendemos como ser, de um modo múltiplo e multiplamente contínuo.

Em seu desdobramento, as possibilidades, necessariamente, e de um modo intrínseco, se constituem, assim, como consciência pré-reflexiva, como consciência fenomenológico existencial. De modo que, fenomenológico existencial e dialógica, compreensiva e implicativa, gestaltificativa, a ação é eminentemente cognitiva, eminentemente epistemológica, especificamente. Ainda que da epistemologia dialógica, fenomenológico existencial empírica.

Uma epistemologia de raiz fenomenológico existencial e dialógica. O que quer dizer, compreensiva e implicativa, gestaltificativa. E não explicativa. Quer seja explicativamente teorética, ou explicativamente comportamental.

O percurso vivencial, vivenciativo, do desdobramento de possibilidades transita como devir compreensivo, compreensivamente cognitivo, como ação, atualização, formação da vivência, e formativo de coisas, desde níveis pré-compreensivos, até se exaurir como coisa. E assim, múltipla e continuamente.

A ação é, assim, compreensiva e implicativa, gestaltificativa; o que quer dizer, fenomenológico existencial e dialógica. Não é explicativa, não é teorética, nem comportamental.

O ethos, a ética da ação, da atualização, da operação da tendência atualizante, é, assim, na momentaneidade instantânea de seu acontecer, vivência fenomenológico existencial, compreensiva e implicativa, gestaltificativa.

De modo que, ao privilegiar o modo de sermos da ação, da atualização, da operação da tendência atualizante, a abordagem rogeriana faz uma decidida escolha pelo ethos, pela ética fenomenomenológico existencial e dialógica, compreensiva e implicativa, gestaltificativa. Ética do pathos, da sensibilidade emocionada, empathos, empatia, pathética.

O pathos, a empatia, a vivência fenomenológico existencial, compreensiva e implicativa, gestaltificativa, é própria e especificamente, dialógica.

Ou seja, da ordem do acontecer – e não do acontecido –, a vivência empática, fenomenológica, é o modo de sermos do ator, modo de sermos da ação, do acontecer. E não o acontecido modo de sermos do sujeito e do objeto.

Eminentemente distinta, anterior, à condição acontecida do sujeito e do objeto -- e de sua explicativa dicotomização -- a vivência fenomenológica, a vivência empática, é vivência de sentido logos, onto logos, fenomeno logos, dia logos.

Especificamente dialógica, a vivência fenomenológico existencial, a vivência empática, compreensiva, implicativa, gestaltificativa, é uma vivência de compartilhamento (dia) do sentido (logos). É uma vivência dialógica.

Compartilhamento do sentido, dia logos, vivência empática, que pode se dar, segundo a antropologia buberiana, na esfera da relação com a natureza não humana, na esfera do humano, do inter humano; e na esfera da relação com o sagrado.

O caráter empático da abordagem rogeriana significa que ela adota a ética e a metodologia do pathos, da vivência fenomenativa. Adotando como metodologia, como epistemologia, como ontologia a fenomenológica da ação, da atualização, da tendência atualizante. Ontologia, ética, epistemologia e metodologia, fenomenológico existenciais e dialógicas, compreensivas e implicativas, gestaltificativas. Que permitem, e potencializam a ação, a atualização, a operação da tendência atualizante.

Rogers se caracterizou por uma clara e decidida compreensão da importância do poder existencial da ação, do poder fenomenológico existencial da atualização, da tendência atualizante. Compreendeu que a ação é a própria existência, o próprio acontecer da existência. Que, múltipla e continuamente, supera o acontecido da existência, criando-o e recriando-o continuamente, em sua poiese. Criando-nos é recriando a nós próprios, e ao mundo que solidariamente nos diz respeito.

 


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